Foto de Hugo Macedo
quando fechou a porta
da sala, os olhos dos seus antepassados lhe intimidaram as forças e quase
resolveu voltar, foi quando Veneranda surgiu e ventava muito nessa hora, o
barulho do vento era o som dos seus cabelos amarfanhados pela sesta dominical
que dava à sua voz amanhecida um tom de ancestralidade que, no alto dos seus
cinquenta anos mal vividos, era um presente de um deus que a queria testemunha
do livre-arbítrio humano, senta Davi, ela disse, e eu não parei de olhar para
os quadros da sala, o meu bisavô Beraldo tinha no olhar o peso da humanidade
que se arrepende, minha tia-avó Raquel dava mostras do quanto morrer sozinha
imprime às fotografias póstumas uma teia de aranha perene envolta aos cabelos
sem raiz de riso (apenas poeira e lágrimas), o quarto dos livros continua
fechado, Veneranda disse e o meu silêncio guiado pelos olhares dos meus primos
mortos na última briga de família a fez corrigir a assimetria dos quadros com a
ponta da bengala que usava desde o último cliente que recebera em casa, não
quis pagar eu lhe fudi com uma cusparada, em troca fui arremessada ao chão,
estava bem mais velha do que na última vez em que Davi a encontrou, eu me
lembro, foi no quarto dos livros, depois que eu ensinei minha Tia Veneranda a
ler em troca de uns beijos, ela passou a me receber, sempre em troca dos livros
que eu roubava da biblioteca lá de casa, e sempre aos domingos, porque era
santo, e o quarto dos livros era sagrado, e a chaga consumida do tempo ficava
cicatrizada quando, aos domingos, todos os retratos da sala ficavam cobertos
por panos vermelhos, e minha tia quase trinta anos mais velha do que eu me
tomava pelas mãos assustadas, suadas, e eu seguia o caminho do calvário, ela
tinha cheiro de alecrim, as ancas despencando entre os meus dedos de febril
adolescente, nós rezávamos antes de amar e só saía depois do sol posto, para
não ser reconhecido, na casa da puta não, Davi, ela não é sua tia, ela não é
ninguém, está diferente, Davi disse, Veneranda desviou o olhar e o brilho da
hora da tarde se apagando foi-lhe iluminando o sorriso gasto, as mãos
trepidadas de escárnio, os braços cansados, a altivez em oculta sonolência,
você também, Davi sentou-se e disse não sabia desses retratos, eles sempre
ficavam cobertos, eu pensei que fossem antigos amores, amores? a sua risada
elétrica o fez lembrar a vez em que, embaixo do peso quase senil de sua tia,
sempre de olhos fechados e com uma respiração sideral, disse eu te amo tia, ela
riu tanto que Davi foi embora e só voltou dez anos depois, quando já não morava
em Montejo, quando já não tinha medo do que a família pensaria dele ao entrar
na casa da puta, quando as ruas de sua cidade já se tinham inflamado de carros,
quando os livros antigos haviam tomado destinos distantes, e só havia livros
novos e prateleiras geladas de livrarias hipercontinentalizadas, quando o
dinheiro já não comprava nem mesmo o amor, e ainda pensou um instante, em meio
a sua consciência embotada de macho viril que nunca amou ninguém além de sua
família, que o amor tem que nascer da
família, por isso, Tia Venera, deixe-me ficar aqui até o fim de nossos dias,
mesmo se as tampas de nossos ataúdes forem enxovalhadas do escárnio de gerações
que nunca acreditaram no amor verdadeiro, deixe-me lhe mostrar o mundo que está
fora dos livros, deixe-me lhe dar o amor longe das camas, do medo, da apatia,
porque as barras das saias bem cerzidas de todas as mulheres de Montejo e do
planeta inteiro não valem o seu rosário de fim de tarde, o seu beijo maculado
de fervor, o seu gesto de mãe e amante quando, no fim do amor, colhe o meu
suspiro entre seus pomos e acende uma vela perfumada, porque é fim de tarde, e
eu trouxe velas de sete dias para multiplicar o tempo e a prece, trouxe chave
pra abrir a porta do quarto sagrado, e cascata de livros pra lhe trocar pela
alma das eras, trouxe novos retratos para compor os quadros de uma nova
realidade, porque em todos os domingos o céu pesa um grama e quando naquele ano
em Montejo o sol se pôs, os livros de história contaram do encontro dos casais,
uma doce pulsação de vida se alargando entre os seixos bem talhados da cidade,
e naquele ano, Davi, li tempo depois, o sol se pôs perto da minha casa, porque,
muito longe dali, ouviram-se preces e acenos diante de navios, e suspiros dementes
brotando dos camarotes, porque o amor está na família e o céu escorre em
borbotões de laranja-queimado.

