A caipirinha, de Tarsila do Amaral

segunda-feira, 7 de maio de 2012

CONTO - Sol posto na casa de Veneranda


Foto de Hugo Macedo


quando fechou a porta da sala, os olhos dos seus antepassados lhe intimidaram as forças e quase resolveu voltar, foi quando Veneranda surgiu e ventava muito nessa hora, o barulho do vento era o som dos seus cabelos amarfanhados pela sesta dominical que dava à sua voz amanhecida um tom de ancestralidade que, no alto dos seus cinquenta anos mal vividos, era um presente de um deus que a queria testemunha do livre-arbítrio humano, senta Davi, ela disse, e eu não parei de olhar para os quadros da sala, o meu bisavô Beraldo tinha no olhar o peso da humanidade que se arrepende, minha tia-avó Raquel dava mostras do quanto morrer sozinha imprime às fotografias póstumas uma teia de aranha perene envolta aos cabelos sem raiz de riso (apenas poeira e lágrimas), o quarto dos livros continua fechado, Veneranda disse e o meu silêncio guiado pelos olhares dos meus primos mortos na última briga de família a fez corrigir a assimetria dos quadros com a ponta da bengala que usava desde o último cliente que recebera em casa, não quis pagar eu lhe fudi com uma cusparada, em troca fui arremessada ao chão, estava bem mais velha do que na última vez em que Davi a encontrou, eu me lembro, foi no quarto dos livros, depois que eu ensinei minha Tia Veneranda a ler em troca de uns beijos, ela passou a me receber, sempre em troca dos livros que eu roubava da biblioteca lá de casa, e sempre aos domingos, porque era santo, e o quarto dos livros era sagrado, e a chaga consumida do tempo ficava cicatrizada quando, aos domingos, todos os retratos da sala ficavam cobertos por panos vermelhos, e minha tia quase trinta anos mais velha do que eu me tomava pelas mãos assustadas, suadas, e eu seguia o caminho do calvário, ela tinha cheiro de alecrim, as ancas despencando entre os meus dedos de febril adolescente, nós rezávamos antes de amar e só saía depois do sol posto, para não ser reconhecido, na casa da puta não, Davi, ela não é sua tia, ela não é ninguém, está diferente, Davi disse, Veneranda desviou o olhar e o brilho da hora da tarde se apagando foi-lhe iluminando o sorriso gasto, as mãos trepidadas de escárnio, os braços cansados, a altivez em oculta sonolência, você também, Davi sentou-se e disse não sabia desses retratos, eles sempre ficavam cobertos, eu pensei que fossem antigos amores, amores? a sua risada elétrica o fez lembrar a vez em que, embaixo do peso quase senil de sua tia, sempre de olhos fechados e com uma respiração sideral, disse eu te amo tia, ela riu tanto que Davi foi embora e só voltou dez anos depois, quando já não morava em Montejo, quando já não tinha medo do que a família pensaria dele ao entrar na casa da puta, quando as ruas de sua cidade já se tinham inflamado de carros, quando os livros antigos haviam tomado destinos distantes, e só havia livros novos e prateleiras geladas de livrarias hipercontinentalizadas, quando o dinheiro já não comprava nem mesmo o amor, e ainda pensou um instante, em meio a sua consciência embotada de macho viril que nunca amou ninguém além de sua família,  que o amor tem que nascer da família, por isso, Tia Venera, deixe-me ficar aqui até o fim de nossos dias, mesmo se as tampas de nossos ataúdes forem enxovalhadas do escárnio de gerações que nunca acreditaram no amor verdadeiro, deixe-me lhe mostrar o mundo que está fora dos livros, deixe-me lhe dar o amor longe das camas, do medo, da apatia, porque as barras das saias bem cerzidas de todas as mulheres de Montejo e do planeta inteiro não valem o seu rosário de fim de tarde, o seu beijo maculado de fervor, o seu gesto de mãe e amante quando, no fim do amor, colhe o meu suspiro entre seus pomos e acende uma vela perfumada, porque é fim de tarde, e eu trouxe velas de sete dias para multiplicar o tempo e a prece, trouxe chave pra abrir a porta do quarto sagrado, e cascata de livros pra lhe trocar pela alma das eras, trouxe novos retratos para compor os quadros de uma nova realidade, porque em todos os domingos o céu pesa um grama e quando naquele ano em Montejo o sol se pôs, os livros de história contaram do encontro dos casais, uma doce pulsação de vida se alargando entre os seixos bem talhados da cidade, e naquele ano, Davi, li tempo depois, o sol se pôs perto da minha casa, porque, muito longe dali, ouviram-se preces e acenos diante de navios, e suspiros dementes brotando dos camarotes, porque o amor está na família e o céu escorre em borbotões de laranja-queimado.

domingo, 29 de abril de 2012

outro poeminha...

Foto de Hugo Macedo


tudo tem suas estrias:

o cacto, a morte, suas
chinelas vazias.

quinta-feira, 26 de abril de 2012